No mundo da arte contemporânea o termo curador se refere a um profissional com conhecimentos museológicos e artísticos, capacitado a cuidar de acervos e organizar exposições. Cuidar de acervos envolve responsabilidades de catalogação, arquivo, pesquisa, conservação, registros, incorporação, divulgação, controle de entradas e saídas. Organizar exposições envolve toda a produção da mesma, mais pesquisa, comunicação com diversas coleções, documentação das obras em trânsito, concepção da mostra, contratação de montagem, transporte, divulgação, mediação com o público, edição de catálogo, recepção, manutenção da sala expositiva, desmontagem e devolução.
A figura do curador encontra rejeição em algumas rodas românticas, apesar de reconhecida sua importância do meio profissional. Há quem veja nos curadores uma função apequenada, seriam os "escolhedores", os agentes da restrição e do conservadorismo na arte, são acusados de beneficiarem sempre os mesmos, de apostarem somente em nomes ja conhecidos e seguros, de estarem vinculados às galerias, e desprezarem artistas emergentes, não seriam muito afeitos ao "garimpo", ou uma pesquisa de campo mais detida para novos nomes.
Por outro lado o cargo já está bem conhecido no Brasil, talvez conhecido até demais, existe uma banalização do uso do termo de uns 20 anos para cá: hoje existem curadores dos mais variados seguimentos, curadoria de moda, curadoria de conteúdos, curadoria de textos, e por aí vai.
Existem curadores de todo tipo, assim como artistas. Alguns são mais simpáticos do que outros, alguns mais capacitados e completos, outros fazem o mínimo, ou nem isso. A curadoria é um trabalho criativo e administrativo importante, na medida em que coloca alguém como responsável pela exposição ou por um acervo. Quando uma exposição não tem curador a responsabilidade pelos mal feitos acaba se diluindo, e o mérito da exposição também se dilui. Um curador agrega valor a exposição, ele lidera e coordena a realização, ajuda a responder por todos os trabalhos expostos. Neste ponto vejo sua grande contribuição: numa exposição sem curador, se o público perguntar ao artista A algo sobre o artista B, talvez o A não se sinta capacitado para responder. Perguntando ao curador ele certamente terá uma resposta que defenda cada um dos artistas da exposição. Não existe nenhum benefício em desvalorizar a importância dos curadores, pelo contrário, é valioso saber trabalhar eles, ajudam a compor a cena artística e atuam no meio de campo institucional.
Ricardo Ramalho
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Wednesday, July 30, 2014
Saturday, March 30, 2013
Arte não é para o seu bico
As pessoas gastam quatro mil reais num aparelho de TV mas não são capazes de gastar quinhentos reais numa pintura decente. O sujeito tem uma casa suntuosa com mobiliário de centenas de milhares de reais e decora sua casa com pôsters e peças decorativas sem nenhuma relevância e gosto extremamente duvidoso. O carro é no mínimo um SUV novo, e a sala decorada com quinquilharias. Tenho visto também uma outra situação curiosa: zero arte nas paredes, nada.
Os brasileiros precisam aprender a apreciar mais a arte contemporânea, muitos de nós apenas visitam museus em Paris e Nova Iorque, não frequentam museus em São Paulo, que são excelentes e de nível internacional.
O mercado de arte tem crescido muito no Brasil, em especial em São Paulo e Rio de Janeiro. É uma interessante opção para o investidor. Em breve teremos mais uma edição da feira SP Arte, no pavilhão da Bienal, com mais de 100 galerias. Uma obra de um artista jovem pode custar barato e em poucos anos seu preço pode evoluir muito. Isto tudo mantendo sua casa muito bonita, seu status elevado e suas visitas encantadas.
Para investir de forma correta é preciso compreender um pouco o que vem a ser a Arte Contemporânea. Resumidamente trata-se da arte do nosso momento histórico. No século passado a arte que predominou foi a Arte Moderna, ela durou aproximadamente de 1900 a 1960, compreendendo no início, por exemplo, a tendência do expressionismo de Van Gogh, e no final por volta de 1960 a gestualidade do expressionismo abstrato de Pollock, que encerra a modernidade, de acordo com historiadores. Observe que Arte Moderna é um período, e a Arte Contemporânea é um outro período histórico, então não estamos apenas falando da “arte de hoje”, mas de uma categoria de arte, um produto bem definido por um circuito oficial institucionalizado. No futuro teremos um outro nome, talvez Arte da Nova Era, ou Pós-Contemporânea e assim sucessivamente. Para investir é necessário conhecer artistas, verificar seus currículos de exposições, verificar seu nível de envolvimento no circuito de arte, se existem textos críticos e catálogos, se o seu trabalho tem uma linguagem ja consagrada pelo sistema de arte, consultar pessoas, dialogar, ler um pouco, acompanhar. Observe que uma cerâmica de Caruarú, ou uma pintura decorativa da praça da República não são consideradas “arte contemporânea”, porque estão fora do diálogo com o meio institucional e histórico. E certamente não serão investimento, mesmo que sejam muito bonitas.
Existe o investidor conservador, e o investidor agressivo. O conservador compra grande nomes, são obras de 20 mil, 50 mil reais, ou 100 mil, que serão mais fáceis de vender depois, graças a notoriedade dos artistas. Mas a valorização poderá ser menor. Uma obra comprada por 20 mil pode ficar com seu preço estagnado por vários anos. Outro tipo de investidor é o de perfil agressivo, este compra obras de jovens artistas promissores, que poderão se adquiridas por 2 mil reais ou 5 mil reais, e em poucos anos sua cotação pode dobrar e ir além, porque são emergentes, embora a liquidez seja menor inicialmente. O conjunto de uma coleção de perfil agressivo pode sofrer uma valorização fenomenal e representar um patrimônio significativo no longo prazo.
“Não é para o seu bico” é uma generalização injusta, como todas as generalizações. É um título retórico que parte do pressuposto que nenhum dos leitores é um comprador de arte, por outro lado serve para chamar a atenção para o fato de que provavelmente a grande maioria não é mesmo, embora pudessem ser. Você pode rapidamente reverter este quadro. Então visite exposições, galerias, e museus, aproxime-se dos artistas, e colecione obras de arte de potencial cultural e representatividade conceitual no circuito instituído.
Ricardo Ramalho
Os brasileiros precisam aprender a apreciar mais a arte contemporânea, muitos de nós apenas visitam museus em Paris e Nova Iorque, não frequentam museus em São Paulo, que são excelentes e de nível internacional.
O mercado de arte tem crescido muito no Brasil, em especial em São Paulo e Rio de Janeiro. É uma interessante opção para o investidor. Em breve teremos mais uma edição da feira SP Arte, no pavilhão da Bienal, com mais de 100 galerias. Uma obra de um artista jovem pode custar barato e em poucos anos seu preço pode evoluir muito. Isto tudo mantendo sua casa muito bonita, seu status elevado e suas visitas encantadas.
Para investir de forma correta é preciso compreender um pouco o que vem a ser a Arte Contemporânea. Resumidamente trata-se da arte do nosso momento histórico. No século passado a arte que predominou foi a Arte Moderna, ela durou aproximadamente de 1900 a 1960, compreendendo no início, por exemplo, a tendência do expressionismo de Van Gogh, e no final por volta de 1960 a gestualidade do expressionismo abstrato de Pollock, que encerra a modernidade, de acordo com historiadores. Observe que Arte Moderna é um período, e a Arte Contemporânea é um outro período histórico, então não estamos apenas falando da “arte de hoje”, mas de uma categoria de arte, um produto bem definido por um circuito oficial institucionalizado. No futuro teremos um outro nome, talvez Arte da Nova Era, ou Pós-Contemporânea e assim sucessivamente. Para investir é necessário conhecer artistas, verificar seus currículos de exposições, verificar seu nível de envolvimento no circuito de arte, se existem textos críticos e catálogos, se o seu trabalho tem uma linguagem ja consagrada pelo sistema de arte, consultar pessoas, dialogar, ler um pouco, acompanhar. Observe que uma cerâmica de Caruarú, ou uma pintura decorativa da praça da República não são consideradas “arte contemporânea”, porque estão fora do diálogo com o meio institucional e histórico. E certamente não serão investimento, mesmo que sejam muito bonitas.
Existe o investidor conservador, e o investidor agressivo. O conservador compra grande nomes, são obras de 20 mil, 50 mil reais, ou 100 mil, que serão mais fáceis de vender depois, graças a notoriedade dos artistas. Mas a valorização poderá ser menor. Uma obra comprada por 20 mil pode ficar com seu preço estagnado por vários anos. Outro tipo de investidor é o de perfil agressivo, este compra obras de jovens artistas promissores, que poderão se adquiridas por 2 mil reais ou 5 mil reais, e em poucos anos sua cotação pode dobrar e ir além, porque são emergentes, embora a liquidez seja menor inicialmente. O conjunto de uma coleção de perfil agressivo pode sofrer uma valorização fenomenal e representar um patrimônio significativo no longo prazo.
“Não é para o seu bico” é uma generalização injusta, como todas as generalizações. É um título retórico que parte do pressuposto que nenhum dos leitores é um comprador de arte, por outro lado serve para chamar a atenção para o fato de que provavelmente a grande maioria não é mesmo, embora pudessem ser. Você pode rapidamente reverter este quadro. Então visite exposições, galerias, e museus, aproxime-se dos artistas, e colecione obras de arte de potencial cultural e representatividade conceitual no circuito instituído.
Ricardo Ramalho
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